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| Foto National Gallery em Londres |
As dificuldades enfrentadas pelo individuo para se encontrar num mundo caótico parece refletir a dificuldade de estabelecer uma relação segura entre um "dentro e fora", ou seja, de construir para si uma moldura estável e definida. Por essa razão, achei muito rica a maneira como Lorenzo Mammì conta as revoluções vividas pelas "bordas" da obra de arte, pois vejo nas transformações das molduras uma metáfora das desconstruções e reorganizações vividas pela identidade na atualidade.
O eu como portador
"Até a mais simples das molduras lança mão de uma série de recursos que se tornaram convencionais a ponto de não serem percebidos conscientemente: o corte diagonal das juntas, que sugere uma convergência para o interior do quadro; o recuo progressivo dos planos, ainda mais se graduado pelas modinaturas chanfradas e pelo passe-partout, nos permite mergulhar aos poucos na imagem. Nos pedestais dos monumentos, a gradual redução de escala responde à mesma exigência de afastar a obra do espaço comum. A simplicidade dessas convenções esconde séculos de refinamentos e simplificações progressivas."
A princípio as molduras serviam para destacar a obra do "espaço comum", executando uma transição entre mundos sem carregar questões de maior complexidade. Enquanto as relações entre a obra e seu exterior não mudavam consideravelmente, a moldura possuía a função de portar uma obra de arte. Acredito que nós também exercemos por muito tempo a função de portar características que nos determinam, acumulamos "nomes" e tradições de acordo com a cultura em que nascemos. Tudo arrumado de forma a preservar uma dignidade que se organiza por contrastes, como família, nacionalidade, sexualidade e naturalmente ignoramos como tudo isso se organizou, mas nos sentimos "singulares" por carregar tais marcas.
Em períodos em que as obras de arte passaram a ser largamente apreciadas e comercializadas, as bordas de um quadro eram demarcadas por molduras "funcionais", visando o transporte, estocagem e se encaixavam sem deixar parede à vista. Dentro destes limites dourados a obra se posicionava placidamente para ser admirada. A exposição era um tanto caótica, pois cada pintura era uma entidade completa e incomunicável, não existindo uma preocupação entre a interação das obras com as outras, ou com o lugar em que era exposta, o que construía uma coletividade heterogênea de obras.
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| Gabinete de curiosidades de Cornelis van der Geest sec. XVII |
"No começo da era industrial, no estilo rococó, o capricho das molduras e dos estuques parece buscar uma fusão ainda mais radical entre tela e parede. Mas uma continuidade tão reiterada esconde a angústia de uma descontinuidade de fato. Sheater West estudou as molduras nas mansões aristocráticas inglesas do século XVIII - molduras que costumavam ser previstas pelos projetos arquitetônicos e desenhadas para cada parede. A tese de West é que elas tinham a função de afirmar uma estabilidade ( o retrato do antepassado incrustado na parede da casa de família) justamente no momento em que essa estabilidade era ameaçada pela ascensão de uma classe de novos-ricos."
Esta citação indica como a moldura deixa de demarcar apenas a obra, para estabilizar a identidade social da família aristocrática inglesa em transformação, ameaçada pela era das revoluções. A moldura se torna mais elaborada quando a relação do entorno com a obra se desestabiliza. Com a chegada do impressionismo as molduras começam a interagir com a obra, podendo ganhar tons complementares aos do quadro ou integrando a obra em um ambiente que ressalta a experiência estética da contemplação. Essa valorização da obra pela interação com o ambiente de exposição começa a transformar os esquemas de exposição das obras, ao ponto em que "mudar de lugar pode significar mudar de obra".
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| Cavaletes de vidro do MASP |
Esta foto de uma exposição do MASP com os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi me lembra as multidões de anônimos que caminham todos os dias pelas ruas de São Paulo - invisíveis. Com a chegada da modernidade, o eu passa a ser absorvido por relações instrumentais que vão alterar drasticamente sua posição medieval de mero portador. Nesse sentido, os cavaletes invisíveis me parecem ser um exemplo muito claro de como a subjetividade foi se transformando para conseguir "sustentar" conteúdos e valores sem interferir, ou quase sem "existir". Com a ciência, um ideal de imparcialidade se populariza como se a verdade da natureza pudesse ser acessada quando o eu não interferisse nas relações entre e a razão e seus objetos. Quais seriam os efeitos dessa invisibilidade existencial para nós? Ou qual é o preço que pagamos por instrumentalizar o eu, submetendo-o a critérios de funcionalidade que o transcendem e que podem torná-lo descartável diante da primeira inadequação?
Aura e desencanto
"Reagindo a certa intensificação retórica do sujeito criador, embutida na institucionalização da action painting, defende a tese que não há nada que configure, de antemão, a superioridade da obra de arte sobre qualquer outro objeto de produção simbólica."
Os ready-made de Duchamp representam uma crítica à aura da obra de arte, à ideia de que o objeto produzido pelo artista seja "mais importante que os demais" pelo simples investimento da genialidade artística representada em nosso imaginário pelos "grandes artistas" como Da Vinci ou Michelangelo. Acontece que todo o "potencial crítico" dessa arte repousa na construção da exposição, tendo em vista que a obra passa a operar pela organização do espaço expositivo de itens ordinários do cotidiano. O espaço do museu entra em primeiro plano como articulador das questões e explorações artísticas.
A sacada de Duchamp em explorar as articulações entre a estrutura de exposição e a obra revela efeitos e forças antes ocultas pela "aura da obra". O impacto de expor um urinol em um museu pode ser sentido por um cidadão brasileiro quando ele se depara com personalidades como Michel Temer, ou Bolsonaro, em posições de autoridade política. Esse estranhamento é gerado pelas expectativas embutidas em nosso olhar (estamos acostumados a admirar um pessoa em posição de autoridade) e nos permite perceber como nossos valores se organizam em esquemas prévios, instaurando um "lugar" atravessado por estruturas tanto fenomenológicas, no caso da arte, quanto sociais, no caso da política.
A crença em uma aura do eu também nos faz ignorar os múltiplos estratos que habitam nossa identidade. Pensamos que somos únicos e coesos, que nossas vontades partem unicamente de nosso coração e que as ideias brotam de nossa mente espontaneamente. Apenas quando coisas estranhas aparecem no lugar nobre da consciência é que começamos a perceber que ela não é tão cristalina, linear e bonitinha como costumávamos acreditar. Por isso nos assustamos com "cidadão de bem" aplicando choques mortais em desconhecidos, como mostrou o experimento de Stanley Milgram; ou seguimos atônitos a matança de jovens negros na periferia. É muito desconcertante perceber que não existe um eu isolado, inalienável e que tudo pode mudar de acordo com disposição das "peças no tabuleiro".
O eu irreconhecível
"Na sociedade contemporânea, já dizia Smithson, os signos se tornaram tão densos a ponto de formar uma casca dura, sobre a qual é possível correr livremente. Já não se vê nada através deles."
Apreciar a arte contemporânea é um exercício de romper as "cascas duras" de nosso olhar, de abraçar uma nova maneira de ser e se reconhecer. Isso se torna mais incomodo na medida em que estamos ainda fixados na velha moldura do feio/bonito, bom/ruim, certo/errado que nos impede de embarcar na viagem proposta pela obra. Quem sabe não poderíamos descobrir que aquilo que nos desconcerta dialoga com o estranho que nos habita?
Nesse sentido, a arte nos expõe questões que não estamos conseguindo reconhecer em nós mesmos e nos oferta uma oportunidade de ampliar nosso eu e descobrir novas possibilidades de ser, até então engessadas por uma moldura de identidade plena de coerências.
*citações extraídas do livro "O que resta" de Lorenzo Mammì
Aura e desencanto
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| Tom Gauld - ilustração do The Guardian |
"Reagindo a certa intensificação retórica do sujeito criador, embutida na institucionalização da action painting, defende a tese que não há nada que configure, de antemão, a superioridade da obra de arte sobre qualquer outro objeto de produção simbólica."
Os ready-made de Duchamp representam uma crítica à aura da obra de arte, à ideia de que o objeto produzido pelo artista seja "mais importante que os demais" pelo simples investimento da genialidade artística representada em nosso imaginário pelos "grandes artistas" como Da Vinci ou Michelangelo. Acontece que todo o "potencial crítico" dessa arte repousa na construção da exposição, tendo em vista que a obra passa a operar pela organização do espaço expositivo de itens ordinários do cotidiano. O espaço do museu entra em primeiro plano como articulador das questões e explorações artísticas.
A sacada de Duchamp em explorar as articulações entre a estrutura de exposição e a obra revela efeitos e forças antes ocultas pela "aura da obra". O impacto de expor um urinol em um museu pode ser sentido por um cidadão brasileiro quando ele se depara com personalidades como Michel Temer, ou Bolsonaro, em posições de autoridade política. Esse estranhamento é gerado pelas expectativas embutidas em nosso olhar (estamos acostumados a admirar um pessoa em posição de autoridade) e nos permite perceber como nossos valores se organizam em esquemas prévios, instaurando um "lugar" atravessado por estruturas tanto fenomenológicas, no caso da arte, quanto sociais, no caso da política.
A crença em uma aura do eu também nos faz ignorar os múltiplos estratos que habitam nossa identidade. Pensamos que somos únicos e coesos, que nossas vontades partem unicamente de nosso coração e que as ideias brotam de nossa mente espontaneamente. Apenas quando coisas estranhas aparecem no lugar nobre da consciência é que começamos a perceber que ela não é tão cristalina, linear e bonitinha como costumávamos acreditar. Por isso nos assustamos com "cidadão de bem" aplicando choques mortais em desconhecidos, como mostrou o experimento de Stanley Milgram; ou seguimos atônitos a matança de jovens negros na periferia. É muito desconcertante perceber que não existe um eu isolado, inalienável e que tudo pode mudar de acordo com disposição das "peças no tabuleiro".
O eu irreconhecível
| Hélio Oiticica - O grande núcleo |
Apreciar a arte contemporânea é um exercício de romper as "cascas duras" de nosso olhar, de abraçar uma nova maneira de ser e se reconhecer. Isso se torna mais incomodo na medida em que estamos ainda fixados na velha moldura do feio/bonito, bom/ruim, certo/errado que nos impede de embarcar na viagem proposta pela obra. Quem sabe não poderíamos descobrir que aquilo que nos desconcerta dialoga com o estranho que nos habita?
Nesse sentido, a arte nos expõe questões que não estamos conseguindo reconhecer em nós mesmos e nos oferta uma oportunidade de ampliar nosso eu e descobrir novas possibilidades de ser, até então engessadas por uma moldura de identidade plena de coerências.
*citações extraídas do livro "O que resta" de Lorenzo Mammì




excelente texto. por uma vida com menos molduras e mais paisagem.
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