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Não precisamos de um messias



Neste episódio vamos conversar sobre uma notícia fake que circulou durante as eleições e voltou a circular agora. Essa notícia é uma suporta mensagem escrita pelo médium Chico Xavier sobre a vinda de um messias:



Não focarei na legitimidade da mensagem, isso já foi contestado pela Federação Espírita Brasileira(https://www.aosfatos.org/noticias/e-falso-que-chico-xavier-previu-a-chegada-de-bolsonaro-presidencia/), quero aproveitar seu conteúdo para falar sobre a ideia de que precisamos de um messias para nos salvar de nossos problemas. Na mensagem, fica claro que Bolsonaro é o tal messias, combinada com figura respeitada de Chico Xavier, gera uma expectativa esperançosa de que as coisas poderão se resolver se escolhermos Bolsonaro como nosso líder e confiarmos a ele nosso destino.

Essa estrutura político/teológica é bem antiga, descrita sob o nome de populismo. O líder populista é o personagem que consegue reunir traços característicos: é moralmente perfeito, corajoso, sobrenatural(sobrevive a um atentado mortal, filho da virgem, enviado de Deus, fala diretamente com Ele, etc.) e é a personificação da vontade do povo (Deus). Essas prerrogativas o tornam excepcional, acima do ser humano comum, logo, só ele é capaz de nos conduzir para um lugar melhor e nos livrar de nossas próprias misérias. A fórmula é enunciada por Erich Fromm em seu livro "o medo à liberdade" quando descreve a pregação da salvação de Lutero pela submissão total à Deus.

Para o cristianismo de Lutero, o homem é incapaz de fazer o bem e precisa de uma intervenção divina para reencontrar o caminho da virtude, logo, precisamos abrir mão de nossa capacidade de escolha e entrega-la nas mãos de Deus, ou de Jesus, para que então seja operado em nós a transformação para uma vida regenerada. O líder populista faz as vezes de médium entre Deus e o povo, recolhendo nossa submissão para poder operar em nós uma transformação de caráter. Essa fórmula é explorada atualmente por todos os personagens que almejam ocupar o lugar de líder messiânico, construindo uma aparência que personifique a autoridade paterna divina(falar grosso, energicamente) e prometendo restaurar e acabar com toda a corrupção que assola a humanidade. 

Já ouvi pessoas perguntarem o porquê de abrirmos mão de nossa liberdade tão facilmente: por que insistimos em seguir cegamente gurus, pastores, médiuns, presidentes? A razão disso se encontra nessa fórmula muito primitiva de transformação pela alienação, modelo encontrado em nossa primeira infância, por ex. nosso crescimento pela amamentação materna. Crescemos sem "fazer nada", apenas confiando nossas vidas à figura materna. Esse modelo de crescimento faz sentido devido à nossa profunda fragilidade infantil, porém, se torna problemática quando nos tornamos adultos, pois quando continuamos esse movimento de alienação abrimos mão de questionar o caráter daquele em quem confiamos nossas decisões.

Enfrentar o processo de crescimento é uma tarefa desprazerosa, por isso a liberdade nos desperta mais angústia e incerteza do que necessariamente alegria. Esse é o maior problema de habitar uma sociedade de consumo, tendemos a valorizar mais o prazer do que o crescimento e isso nos prende a uma posição de infantilidade permanente. A mensagem original da bíblia sobre o pecado e a salvação foi transformada em um argumento final para nos prender nesse estado de infantilidade/incapacidade moral e afetiva. O que explica porque vemos cada vez mais pessoas sofrendo para lidar com a vida adulta em sociedade, junto com o vácuo da capacidade de se responsabilizar que encontramos em nossos líderes. 

Não é mais o caso de procurarmos um bom messias, ou um bom político, assim como procuramos um bom namorado(a); precisamos começar a pensar por nós mesmos e nos apropriar de nosso processo de transformação pessoal... o presidente não tem nada que ver com isso. Acabar com a corrupção não é uma tarefa do presidente, é uma tarefa de todos nós e isso não significa "acabar" com o problema, pois enquanto existirmos como humanos teremos que lidar com nossos problemas morais. Não precismos de uma lobotomia divina para adquirir um bom caráter, isso demanda um esforço contínuo. Conseguir ter caráter e um bom governo não depende de Deus, depende de um trabalho nada glamouroso de conviver e se expor ao erro, tipo fazer um canal de youtube..rs


Citação:

"A teologia de Lutero dá vazão a este sentimento de desamparo e dúvida. A imagem do homem que ele esboça em termos religiosos descreve a situação do indivíduo que foi ocasionada pela evolução social e econômica de sua época. O membro da classe média era tão inerme face às novas forças econômicas quanto o era o homem, na descrição de Lutero, face a Deus.

Lutero, porém, fez mais do que evidenciar o sentimento de insignificância de que já se achavam imbuídas as classes sociais para quem se pregava - ofereceu-lhes uma solução. Graças a não só aceitar sua própria insignificância como também a humilhar-se ao máximo, abrindo mão de todo vestígio de vontade individual, renunciando e denunciando sua força individual, o indivíduo podia esperar ser aceitável aos olhos de Deus. A relação de Lutero com Deus era de submissão completa. Em termos psicológicos, sua concepção de fé queria dizer: se você se submete completamente, se você aceita sua insignificância individual, então o Deus onipotente pode estar disposto a amá-lo e a salvá-lo. Se você se desvencilhar de seu eu individual com todas as suas servidões e dúvidas por meio da máxima modéstia possível, você se libertará do sentimento de sua própria nulidade e poderá participar da glória de Deus. Assim, ao mesmo passo que Lutero libertava as pessoas da autoridade da Igreja, fazia com que submetessem a uma autoridade muito mais tirânica, a de um Deus que insistia em sujeição completa do homem e no aniquilamento do ego individual como condição indispensável a salvação. A 'fé' de Lutero era a convicção de ser amado sob a condição de capitulação, uma solução que tem muito em comum com o princípio de submissão total do indivíduo ao Estado e ao 'chefe'." pg.73    Erich Fromm

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