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Começando os trabalhos

Cena da animação As aventuras de Robinson Crusoé

        Por que psicanálise? Por que trabalhar com saúde mental? Por que eu escolhi ser um psicanalista? Essas são perguntas que normalmente aparecem e gostaria de usar este espaço para me apresentar e lhes contar as histórias que me trouxeram até aqui. 

      A contemporaneidade é algo que me encanta e assombra desde sempre e acredito que minha disposição para o atendimento psicanalítico é parte dessa jornada de busca por respostas, tanto pelas leituras e estudos, quanto pela conversa com pessoas de diferentes mundos e contextos. Nesse percurso, sempre marcado por curvas e mudanças, nunca abri mão de conversar e me inspirar pelas histórias que as pessoas tinham sobre a vida. Enquanto estudava filosofia, não conseguia simpatizar pelo espaço acadêmico e seus debates herméticos. Não fazia questão de me incluir nesse ambiente e assim fui, meio sem querer querendo, me aproximando de autores e da formação em psicanálise. 

         Conversar sempre me despertou, conviver é algo transformador.

     Sempre li e estudei, mas lá pelas tantas eu parava, fechava o livro e ia debater as ideias descobertas com as pessoas que me rodeavam. A alegria de compartilhar era algo que equilibrava a sede de conhecimento, me dizia a hora de fechar o livro. Compartilhar aquilo que foi descoberto era algo que me motivava a ler mais, pesquisar, enfim, minha vida intelectual sempre esteve de mãos dadas com as pessoas com as quais convivia.

      Dessa convivência fundamental veio a opção pela psicanalise, oportunidade que agarrei com unhas e dentes e que agora me permite elaborar um espaço de conversa organizada pela instituição e pelos colegas de trabalho que encontrei pelo percurso de formação. Assim, a instituição psicanalítica foi a forma que eu encontrei para oficializar algo que já me era familiar, os diálogos no café, as conversas filosóficas e, agora, a conversa analítica.

       O título deste blog - O Eu em construção - é parte de uma proposta de buscar ferramentas e ideias para ajudar aqueles com os quais compartilho o momento atual, liquefeito em grande parte pelas últimas revoluções: políticas, sociais, tecnológicas, sexuais, artísticas... A insegurança é universal e poucas certezas sobreviveram para nortear uma possível caminhada pela existência. Nossa experiência é como a do náufrago que desperta na praia cercado de destroços, descobrindo relíquias e preciosidades cujo sentido não é mais fornecido pelo mundo, mas apenas por nossas lembranças.

"É um bom exercício, em horas vazias e desagradáveis do dia, olhar para qualquer coisa, a caixa de carvão ou a estante de livros, e pensar que alguém poderia sentir-se feliz por ter tirado aquilo de um navio a pique numa ilha solitária. Mas é um exercício ainda melhor lembrar-se de como todas as coisas passaram por esse salvamento por um triz: tudo foi salvo de um naufrágio.
...
Mas eu realmente sentia (a fantasia parece ser boba) como se toda ordem e número de coisas fossem sobras românticas do navio de Crusoé."     
G.K. Chesterton

     Deste lugar de indefinição do contemporâneo, acredito que uma chave importante seja a reconexão entre as pessoas, apenas possível via reconhecimento de nossas fragilidades. Contudo, nesse contexto de incertezas, acredito que o ideal de autonomia e suficiência patrocinados pela tecnologia e ciência se colocam como únicas saídas possíveis em meio as dificuldades que nossa sociedade do consumo tem enfrentado. Esses ideais pressupõem um Eu atômico isolado, fechado, cuja liberdade é inversamente proporcional aos vínculos que possui. O Eu é tido como dado, como um recurso natural subjetivo que está a disposição para ser usado e abusado, até a exaustão.

     Por isso, proponho aqui um olhar sobre o Eu como algo a ser restaurado, estranhado, desconhecido e (re)descoberto. Não para alcançarmos a autonomia, mas a fraternidade.

           Uma boa viagem a todos nós!

O que não podemos alcançar voando, devemos alcançar claudicando. [...]
Segundo as Escrituras, não é pecado claudicar.”    

Citação feita por Freud de um sermão de Abu Hariri

    

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