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Comunicação não violenta - como falar de si sem ser atropelado(parte I)

        
Cena do filme Amor no Divã

          Você já teve um sonho em que não conseguia falar? Algo terrível se aproxima e não conseguimos gritar, abrimos a boca em vão, nos debatemos e acordamos esbaforidos - ufa, foi apenas um sonho!

               Não conseguir falar é um pesadelo, ter algo a dizer e não poder é sufocante. Acontece que nosso dia a dia acaba comportando várias pressões sob a fachada plácida da rotina e acabamos nos acostumando, chegando ao ponto de trocar a verdade de nossos afetos em prol de um consentimento forçado - e ainda somos recompensados por isso. Um dos reflexos de nossas jornadas de trabalho e imperativos de convivência corporativa é o desenvolvimento de uma habilidade de "apneia comunicativa" no qual o individuo aprende a não se manifestar genuinamente por longos períodos de tempo, se calando em prol de um ambiente agradável com a chefia e pares. Aprender essa habilidade se torna uma espécie de ferramenta de sobrevivência, evitando choques desnecessários e o conhecido "desgaste da relação". 

           Dentro dos relacionamentos pessoais vivemos coisas semelhantes, pois acreditamos que a concordância é um sinal de amor e companheirismo, sendo que a discordância aparece como senha de que algo não vai bem, de que o amor está acabando. Nos sentimos mal quando alguém discorda de nossas opiniões, isso quando não estouramos em raiva e decepção. Se for alguém da família, um filho por exemplo, podemos aumentar o tom da voz até transformar um pedido em uma ordem. Podemos cobrar assentimento, barganhar, criar infernos em torno das discordâncias de forma que o outro lado seja forçado a se adaptar e assim construímos praças de guerra em nossos lares, pois as diferenças sempre existirão, em diferentes níveis, logo, sempre haverá um motivo para se enfurecer e uma aresta para aparar.  

E assim vamos desaprendendo a conversar - emudecemos.

Para além das idéias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá” Rumi

          Um dos maiores obstáculos para um entendimento é acreditar que nossa comunicação serve apenas para catalogar o mundo em termos de "certo ou errado". Em seu livro "Comunicação não violenta", Marshall Rosenberg afirma que uma comunicação construída em torno de julgamentos moralizadores se torna um tipo de "comunicação alienante da vida":

"Quando empregamos essa linguagem, julgamos os outros e seu comportamento enquanto nos preocupamos com o que é bom, mau, normal, anormal, responsável, irresponsável, inteligente, ignorante etc."

             Para ajudar o entendimento dessa parte trarei um exemplo pessoal. Minha mãe voltou a fumar depois de ter parado por vários anos e isso aconteceu durante o processo de separação. Na época eu dizia: mãe pare de fumar! Isso é errado, faz mal à saúde, gasta dinheiro, faz mal aos que convivem com você, etc. Muitas brigas depois, ela parecia fumar ainda mais e eu me sentia ignorado e ofendido. Essa cena pessoal não parece ser um privilégio meu, creio que existem milhões de pessoas discutindo nesse exato momento, reproduzindo uma maneira de se relacionar impositiva e moralizante. Estar certo se tornou uma espécie de alavanca nas relações, uma forma de submeter o outro ao nosso ponto de vista e de projetar nossos valores e necessidades sobre o mundo.

"Assim, se minha mulher deseja mais afeto do que estou lhe dando, ela é “carente e dependente”. Mas, se quero mais atenção do que me dá, então ela é “indiferente e insensível”. Se meu colega atenta mais aos pormenores do que eu, ele é “cricri e compulsivo”. Por outro lado, se sou eu quem presta mais atenção aos detalhes, ele é “lambão e desorganizado”. 

Estou convicto de que todas essas análises de outros seres humanos são expressões trágicas de nossos próprios valores e necessidades. São trágicas porque, quando expressamos nossos valores e necessidades de tal forma, reforçamos a postura defensiva e a resistência a eles nas próprias pessoas cujos comportamentos nos interessam. Ou, se essas pessoas concordam em agir de acordo com nossos valores porque aceitam nossa análise de que estão erradas, é provável que o façam por medo, culpa ou vergonha"     Marshall Rosenberg

               Criticar o vício do cigarro era a forma que eu tinha para pedir mais atenção, de encontrar um sinal de que minha mãe me enxergava e se importava com o que eu sentia. Para minha mãe, talvez fumar fosse uma maneira de escapar de todo o sofrimento que um final de casamento poderia trazer, um protesto contra um mundo que não a contemplava e que ela não aguentava mais. Todo esse horizonte de necessidades e sentimentos era continuamente impedido de vir à tona, mantendo eu e minha mãe em um sofrimento solitário, cada um certo à sua maneira. 

Sentimos medo de nos expor e sermos rejeitados por isso.

              Quando conseguimos expressar o que sentimos ou necessitamos, precisamos estar dispostos a aguentar um primeiro processo de críticas. "Mas isso não é justo", "nossa que carente", "isso é loucura", "isso não é normal", essas falas são um sinal de que ainda estamos falando sozinhos, mas leva tempo para que possamos sair das trincheiras do discurso alienante. Dizer que se sente mal quando fulano faz tal coisa não quer dizer que o que ele faz é errado, e até ele perceber isso vamos ouvir várias justificativas. Leva um tempo para desenvolvermos empatia, para entendermos que mesmo estando certos podemos ferir as pessoas e que podemos mudar nossa postura por amor.

              Dizer o que sente pode ser interpretado como uma manifestação egoísta, como um pedido ao mundo para que ele se adapte às suas necessidades. O ponto a ser ressaltado aqui é que pôr em palavras o que sentimos não significa que o outro precise fazer algo a respeito, nem precisa ser uma exigência, mas é parte fundamental da construção de qualquer relação e significa restaurar a função comunicativa das palavras. Sem isso estamos no escuro, ainda que a outra pessoa concorde em continuar conosco, o que normalmente acontece pois preferimos silenciar nossa subjetividade diante do medo da rejeição (sob a forma de solidão afetiva ou desemprego por ex.). Poderia dizer para minha mãe que ver ela voltar a fumar me entristecia, que sentia raiva por ela não me ouvir e por ela ser surda a todas as minhas reclamações, mas não poderia exigir que ela parasse de fumar. 

             Quando a pessoa com a qual convivemos diz não, discorda de nossas opiniões, ou manifesta seus sentimentos, como reagimos? 

            Se a resposta for: "quebramos o pau", estamos incentivando o silêncio do outro e levantando uma cortina de fumaça na relação. Da próxima vez poderá até existir concordância, mas será que podemos chamar isso de relação?

Como me estendi demais, continuarei o tema por mais alguns posts. O livro que estou usando como referência é o Comunicação não violenta do Marshall Rosenberg.   



    

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