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| (Cena de Mushi-shi) |
Gosta de poesia?
Com frequência ouço respostas do tipo: isso não é pra mim, não entendo, é outra língua, não faz sentido, não consigo ler...
Eu nunca fui fã de poesia, nunca consegui decorar uma, apenas imagino como isso deveria ser importante no seio de uma cultura oral. Investir as palavras de musica, rimas e ritmos para que elas falem por si mesmas em nossos aparelhos vocais. Ouvi de um paciente que certas tribos usam canções para se orientar nas trilhas, percebendo qual direção tomar pela parte da música que estão cantando. Os seres eram cantados pelas poesias, estavam disponíveis para as reverberações e dobras de sentido que habitam esse mundo das palavras.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície inata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não aludes o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Carlos Drummond de Andrade - Trecho do poema "Procura da poesia"
Essa dificuldade de ler poesia é cúmplice de uma dificuldade de perceber que existem outras verdades e outros sentidos para além da sequência de causa e efeito ao qual nos acostumamos na idade escolar. O tão aclamado conhecimento imparcial está dizimando nossa capacidade poética, como se uma verdade perdesse seu brilho quando nascente em nossa singularidade. Continuamos nos esforçando para nos adaptar e nos tornar rarefeitos e inteligíveis, virando prosa para agradar um público sem tempo para as ninharias do mundo dos afetos.
A MÁSCARA
Sempre uma máscara
Branca e segura na mão magra
Ela sempre tinha uma máscara diante do rosto…
E em verdade o pulso
Que a segurava com leveza
Era adequado à tarefa.
Às vezes, entretanto,
Não haveria um arrepio,
Um tremor na ponta dos dedos –
Ainda que bem leve –,
Ao segurar a máscara?
Durante anos e anos, fiquei curioso,
Mas não ousei perguntar,
E então…
Num movimento grosseiro,
Olhei por trás da máscara
E não encontrei
Nada…
Ela não tinha rosto.
Ela havia se tornado
Meramente a mão
Que segurava a máscara
Com elegância.
Anônimo
"Como você se sente diante disso?" talvez é a pergunta mais frequente em uma terapia. É difícil de responder, geralmente ouço respostas do tipo, sinto isso aqui - é normal? Ou a resposta acaba girando em torno de ideias do que as outras pessoas deveriam ter feito, ou o que deveria ter acontecido. Quando falamos de nossos sentimentos, parece que estamos falando de estranhos que dividem o apartamento conosco, mas com os quais nunca conversamos e deles não sabemos absolutamente nada. Para exemplificar algumas dificuldades envolvidas no processo de falar sobre o que sentimos, vou usar uns trechos do livro Comunicação não violenta:
"Uma confusão comum gerada por nossa linguagem é o uso do verbo sentir
sem realmente expressar nenhum sentimento. Por exemplo, na frase “Sinto que
não consegui um acordo justo”, a palavra sinto poderia ser mais precisamente
substituída por penso, creio ou acho.
“Sinto que você deveria saber isso melhor do que ninguém”.
“Sinto-me como um fracassado”.
“Sinto como se estivesse vivendo com uma parede”.
“Sinto que eu tenho de estar constantemente disponível”. “Sinto que
isso é inútil”.
“Sinto que meu chefe está me manipulando”
Um contraste simples para entendermos mais claramente a confusão pode ser visto nesta comparação:
“Sinto-me insignificante para as pessoas com quem trabalho”.
A palavra insignificante descreve como acho que os outros estão
me avaliando, e não um sentimento real, que, nessa situação, poderia
ser “Sinto-me triste” ou “Sinto-me desestimulado.”
Aqui o autor indica o uso de palavras que privilegiam a interpretação das cenas e das pessoas em detrimento do que sentimos diante de tais situações. Quando conseguimos perceber essas diferenças, conseguimos nos apropriar de nossos afetos e iniciar uma nova forma de relação tendo como referencial nosso mundo afetivo, escapando daquelas intermináveis discussões que giram em torno da interpretação correta do que dissemos, ouvimos, pensamos, etc.
"Mas se eu disser que me sinto triste, ou ofendida, humilhada por algo que fulano disse ou fez, ele poderá dizer que eu entendi errado". Aqui temos uma versão discursiva do estranho hábito de "culpar a vítima" pelo erro de interpretação.
Desaprendemos a falar de nosso mundo afetivo por sermos constantemente atropelados pela verdade alheia, ou por verdades universais usadas como pistas de mão única que não deixam que outras verdades venham à tona. Dessa forma, o que sentimos acaba se tornando uma espécie de ruído na relação e acabamos tentando traduzir o que sentimos em suas versões intelectualizadas ou moralizadas para conseguir uma expressão válida de nosso ponto de vista. Fazendo assim conseguimos nos sentir aceitos, ou tentamos ser.
Dessa forma nos perdemos entre os turbilhões de sentimentos que protestam por um reconhecimento, e o medo de magoar e perder as pessoas que amamos.
Iniciei o post falando de poesia tendo em vista que nossas verdades afetivas serão sempre singulares e isso não invalida nosso discurso, não torna as palavras menos significativas. Acontece que da mesma forma que as pessoas se relacionam menos com a poesia, elas também tem maiores dificuldades para falar sobre o que sentem.
Quando validamos o que sentimos e traduzimos isso em palavras, estamos fazendo poesia. Precisamos de confiança para adentrar esse novo mundo, confiança que alguém vai nos ouvir ainda que sejamos incompreensíveis, ainda que a lírica seja um gesto ou um gemido, cada um faz a sua poesia com o que tem à mão. Ler e ouvir os afetos alheios pede uma dose de generosidade, de resiliência diante do não saber e muita paciência. Todas essas qualidades são exercitadas quando nos aproximamos da poesia.
Finalmente, quando falamos o que sentimos algo que apenas existia nas profundezas do subjetivo rompe no real, e isso está mais próximo da beleza do que da interpretação.
"Imagine dizer: o pôr do sol é interessante" Susan Sontag

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