"Eu estou aqui hoje porque eu sou gay*" Ellen Page assumiu-se com essas palavras em uma conferência chamada Time to thrive, sobre Direitos Humanos e o público LGBT:
"Eu sofri durante anos, porque estava com medo de sair [do armário]. Meu espírito sofreu, minha saúde mental sofreu, meus relacionamentos sofreram. E eu estou aqui hoje, com todos vocês, no outro lado da dor."
Durante a palestra ela repete várias vezes a expressão "é estranho", isso me faz pensar o quanto é difícil para nós falar sobre sexualidade em público e o quanto esse tema é ainda atravessado por preconceitos, vergonhas, e o quanto sofremos por isso.
Quando devo contar aos meus pais?
Esta questão reflete o drama solitário de jovens que gostariam de ser incluídos no mundo particular de seus pais, um paraíso trepidante que não quer encarar suas origens, que se proclama livre das questões impostas pelo enraizamento familiar. "Filho, enquanto você viver debaixo desse teto vai seguir as minhas regras" ou "quando você arrumar um emprego e sair de casa poderá fazer o que bem entender", são falas comuns que deixam no ar a ideia de que os vínculos familiares são passíveis de edição assim que se tornem incômodos, sendo os filhos amados na medida em que concordem com os pais.
O que resta aos filhos senão agradar em silêncio? Como é para esses jovens perceber que buscar a felicidade implica abdicar da presença afetiva dos pais? De que maneira esse jovem percebe sua vida e sexualidade quando seus principais referenciais existenciais estão dispostos a odiá-lo e descartá-lo diante mais tênue manifestação de sua singularidade? Essas questões e toda a violência que acompanha nossos jovens são decorrentes de um estreitamento das possibilidades de relacionamento advindos de uma sociedade cujos referenciais principais advém das relações de consumo.
É importante que o jovem que sofre a discriminação sexual perceba que está diante de uma situação que vai além da questão da aceitação individual - é uma questão social e histórica que não estamos conseguindo articular, porque estamos privilegiando a felicidade privada em detrimento dos vínculos interpessoais. Por isso precisamos abrir o "assumir-se" para uma perspectiva adequada ao tamanho do problema, nos solidarizando com as novas gerações para trabalhar dilemas relegados pelas gerações anteriores ao porão do tabu.
O "assumir-se" como o uma questão de toda a sociedade
Ser gay em uma cidade do interior significa enfrentar pressões maiores do que quem vive em uma cidade grande, mais cosmopolita. Assumir-se, nesses casos, significa enfrentar oposições que transcendem o núcleo familiar. A combinação entre a amplitude da "revelação" e um nível maior de preconceito aumentam o medo do ostracismo, de sofrer violências e coisas piores, fato que força muitos a buscarem alternativas como "estudar fora" para poder viver sua sexualidade. Para aqueles que nasceram em famílias muito religiosas, ou tradicionais, silenciar a sexualidade é uma maneira de aguentar o preconceito e a desaprovação até alcançar a independência e poder viver por conta própria.
Assumir-se é um longo percurso de silêncio e luta, menos sofrido para alguns do que para outros. Isso deixa claro que o problema não deve ser enfrentado apenas pelos indivíduos em sua esfera privada, não seria justo nem humano. Devemos, como sociedade, lutar contra a intolerância e pelo direito de vivermos plenamente nossas vidas, independente de nossa sexualidade. Muitos adolescentes sofrem, quando não morrem ou são expulsos de casa, ao enfrentar sozinhos questões que a sociedade deveria enfrentar coletivamente, restando-lhes buscar a tão sonhada "independência financeira" para escapar da intolerância vivida em família. Essa é a grande questão que o "assumir-se" ilumina, pois grandes mudanças estão em curso na sociedade, mudanças que alteram os referenciais seguidos pelos pais há séculos, mas não estamos conseguindo articular respostas que escapem a alternativa liberal preguiçosa da tal "independência financeira".
O dizer-se gay ganha tons dilemáticos em um cenário de incertezas, onde a família se reestrutura para comportar casamentos gays, divórcios frequentes, evoluções reprodutivas, direitos das mulheres e revoluções econômicas. Este cenário complexo deixa os pais sem um referencial claro de como cuidar de seus filhos, o que acaba despertando o medo e uma urgência por valores e formas que possam organizar a experiência em família. A manifestação violenta de pais que temem pela orientação sexual dos filhos é uma tentativa de colocar "vinhos novos em recipientes velhos", uma maneira precária e solitária de lidar com as mudanças históricas brutais que temos experimentado na atualidade. Apesar de essa ser uma prática comum, enfiar goela abaixo transformações sociais para que os indivíduos sofram e encontrem no consumo privado (tanto de coisas como de medicamentos) a única saída, acredito que podemos ser menos horríveis para com as pessoas com as quais compartilhamos a existência nesse planeta.
O beleza do ser está além do controle
"O pior exemplo talvez tenha sido a dissertação de C, em que ele simplesmente ficou jogando de um lado para outro uma porção daquilo que veio a ser conhecido como coisas de Klein, sem dar a menor impressão de possuir uma apreciação dos processos pessoais do paciente. A sensação foi de que se ele estivesse cultivando um narciso, pensaria estar fazendo um narciso a partir de um bulbo, e não capacitando o bulbo a se desenvolver num narciso através de tratos satisfatórios"
Winnicott em carta à Melanie Klein
Geralmente não precisamos de uma afirmação explicita para saber que uma pessoa é gay. Desde a mais tenra infância, algumas pessoas revelam traços que discordam de nossos modelos de feminilidade ou masculinidade. Crianças afeminadas sofrem bulling, pressão e violência dos pais, pois ainda temos a ideia distorcida de que educar significa "formar" indivíduos, incluindo sua sexualidade. Isso marca as pessoas para reprimirem sua homossexualidade, tanto gays, quanto héteros (para a psicanalise, somos originalmente bissexuais). Ainda sim, algo brilha de maneira diferente, a despeito de todas as pressões.
Lembro-me do filme Moonlight, quando o personagem principal adentra o restaurante para encontrar um "velho amigo". Ele se tornou forte, tem um carro invocado, dentes com uma moldura metalizada, incorporando uma série de esteriótipos de macho alfa herdados de seu pai adotivo. Tendo isso em mente, a beleza do encontro no restaurante me parece advir do choque dessa armadura machona construída em um percurso de violências e o amor preservado no olhar e no sorriso, revelando sua faceta inquebrantável. O amor faz desmoronar todas as armaduras num encontro de olhares e isso me traz um certo alento, pois brotamos e nascemos a despeito das terríveis condições que vivenciamos.
Não precisamos nos assumir publicamente, nem ter uma criação "bem aventurada" para que essa beleza brilhe. O coração pulsa à revelia de nossos preconceitos, introduzidos em todos nós pelas infinitas "inseguranças adultas" que nos formaram e castigaram no decorrer de nossa infância e adolescência. Aqui me pergunto o quanto nossa insegurança não é a de nossos pais, e dos pais deles... e o quanto toda essa violência que se manifesta pelos preconceitos contra a diversidade sexual não esconde uma fragilidade profunda, reflexo de um longo processo histórico de erosão das estruturas de poder que acertam a família em cheio na atualidade?
Como a citação diz, acredito que não seja desejável "fazer um narciso a partir de um bulbo", ou fazer um homem e uma mulher modelo a partir de uma criança, mas sim capacitar nossas crianças a serem o que elas quiserem da maneira mais satisfatória possível. Grande parte do sofrimento dos pais consiste em querer enquadrar seus filhos em modelos que não fazem mais sentido para as novas gerações, extrapolando a esfera da educação para transformá-la em um remendo de questões pessoais não elaboradas. Nesse contexto, educação se transforma em violência e coerção. Cabe aos pais trabalharem as mudanças que vivenciaram, deixando aos filhos mais espaço para enfrentarem os próprios dilemas, que convenhamos, não são poucos.
*O termo "gay" é usado no lugar de "homossexual" nos EUA para escapar ao jargão psiquiátrico, algo que eu acho pertinente.
"O pior exemplo talvez tenha sido a dissertação de C, em que ele simplesmente ficou jogando de um lado para outro uma porção daquilo que veio a ser conhecido como coisas de Klein, sem dar a menor impressão de possuir uma apreciação dos processos pessoais do paciente. A sensação foi de que se ele estivesse cultivando um narciso, pensaria estar fazendo um narciso a partir de um bulbo, e não capacitando o bulbo a se desenvolver num narciso através de tratos satisfatórios"
Winnicott em carta à Melanie Klein
Geralmente não precisamos de uma afirmação explicita para saber que uma pessoa é gay. Desde a mais tenra infância, algumas pessoas revelam traços que discordam de nossos modelos de feminilidade ou masculinidade. Crianças afeminadas sofrem bulling, pressão e violência dos pais, pois ainda temos a ideia distorcida de que educar significa "formar" indivíduos, incluindo sua sexualidade. Isso marca as pessoas para reprimirem sua homossexualidade, tanto gays, quanto héteros (para a psicanalise, somos originalmente bissexuais). Ainda sim, algo brilha de maneira diferente, a despeito de todas as pressões.
Lembro-me do filme Moonlight, quando o personagem principal adentra o restaurante para encontrar um "velho amigo". Ele se tornou forte, tem um carro invocado, dentes com uma moldura metalizada, incorporando uma série de esteriótipos de macho alfa herdados de seu pai adotivo. Tendo isso em mente, a beleza do encontro no restaurante me parece advir do choque dessa armadura machona construída em um percurso de violências e o amor preservado no olhar e no sorriso, revelando sua faceta inquebrantável. O amor faz desmoronar todas as armaduras num encontro de olhares e isso me traz um certo alento, pois brotamos e nascemos a despeito das terríveis condições que vivenciamos.
Não precisamos nos assumir publicamente, nem ter uma criação "bem aventurada" para que essa beleza brilhe. O coração pulsa à revelia de nossos preconceitos, introduzidos em todos nós pelas infinitas "inseguranças adultas" que nos formaram e castigaram no decorrer de nossa infância e adolescência. Aqui me pergunto o quanto nossa insegurança não é a de nossos pais, e dos pais deles... e o quanto toda essa violência que se manifesta pelos preconceitos contra a diversidade sexual não esconde uma fragilidade profunda, reflexo de um longo processo histórico de erosão das estruturas de poder que acertam a família em cheio na atualidade?
Como a citação diz, acredito que não seja desejável "fazer um narciso a partir de um bulbo", ou fazer um homem e uma mulher modelo a partir de uma criança, mas sim capacitar nossas crianças a serem o que elas quiserem da maneira mais satisfatória possível. Grande parte do sofrimento dos pais consiste em querer enquadrar seus filhos em modelos que não fazem mais sentido para as novas gerações, extrapolando a esfera da educação para transformá-la em um remendo de questões pessoais não elaboradas. Nesse contexto, educação se transforma em violência e coerção. Cabe aos pais trabalharem as mudanças que vivenciaram, deixando aos filhos mais espaço para enfrentarem os próprios dilemas, que convenhamos, não são poucos.
*O termo "gay" é usado no lugar de "homossexual" nos EUA para escapar ao jargão psiquiátrico, algo que eu acho pertinente.
Comentários
Postar um comentário