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Cuidar dos outros e o cuidar de si

O retrato do abandono - Largo do Paissandu(Felipe Rau/Estadão)

Quando ando pelas ruas de São Paulo uma das coisas mais nítidas para mim é o abandono. As ruas de bairros menos glamourosos estão sempre sujos, poucas árvores, o cheiro diz que muitas pessoas usam aqueles cantos como banheiro. Eu não tenho carro, então me desloco de ônibus, metrô ou a pé e isso tem sido a minha escola nos últimos anos. Quando era professor em Santana eu via muitas pessoas se amontoando para usar as calçadas estreitas, sem árvores e as fachadas e muros normalmente estavam sujos e pichados. Pensava na época no porque vivemos assim, de maneira tão exposta ao sol da vida? Sentia que aquelas pessoas toleravam aquilo porque aquela era a realidade delas desde a mais tenra infância.

Quando visitava bairros mais afastados de São Paulo, tinha a impressão de que as coisas eram deliberadamente destruídas, feias, mal cheirosas. Mas assim é todo bairro afastado e carente, todo bairro de periferia que eu conheço tem essa "cara". Os bairros centrais de São Paulo possuem muitos moradores de rua e agora isso está mais evidente, desde que o prédio ocupado caiu no Largo do Paissandú, revelando o que os jornais chamam como crise habitacional, coisa que eu prefiro chamar de crise "cuidacional". Não conseguimos mais cuidar das coisas, desaprendemos de como cuidar das plantas, dos animais e de nossos vizinhos, das pessoas, de nossos bairros e no fim percebemos que não conseguimos cuidar de nós mesmos.

O cuidado passou a ser "coisa que se compra", um bem que apenas se disponibiliza mediante transação financeira. Isso explica um pouco porque as pessoas se adaptam à precariedade, porque no horizonte dessas pessoas apenas podemos cuidar, ou ser cuidados, mediante ajuda financeira. Não percebemos mais que cuidar significa dar atenção, olhar e ouvir as coisas e as pessoas de forma gratuita. Mas o que existe para além do financeiro? Estivesse Nietzsche vivo, talvez escrevesse um "além do que podemos comprar".

Por isso acho errado dizer que os bairros pobres são desse jeito por um "problema econômico", nós estamos sofrendo, na verdade, de escassez muito pior: a afetiva. Mas os bairros ricos e condomínios de luxo são lindos! Sim, mas eles não estão dissociados dos bairros pobres. Os bairros de classe alta são arborizados e possuem calçadas amplas como um lembrete de que precisamos ter dinheiro para ter espaço, bem estar e conforto. Existe um esforço em transformar dignidade em uma qualidade comprável, o que opera na outra ponta como um esforço para abandonar as classes mais pobres à miséria em todos os sentidos. O que perdemos quando transformamos a dignidade em um "plus" de classe, algo que só podemos adquirir monetariamente?

Esse post me veio a cabeça depois de ver uma palestra de John A. Powell, um professor de Direito e Inclusão Social da universidade de Berkeley. Suas palavras refletem preocupações que eu normalmente não vejo nos noticiários brasileiros, por isso decidi compartilhar isso com vocês neste espaço.

"Como nós podemos realmente refletir sobre as políticas e estruturas que refletem nossos valores mais profundos, nosso jeito de nos conectar? Como nós podemos realmente aprender a cuidar uns dos outros?
(...)
Eu penso que, em uma sociedade saudável, nós deveríamos realmente cuidar uns dos outros, não apenas doando dinheiro, mas nos relacionando uns com os outros, verdadeiramente compartilhando nossos sofrimentos."

Ele defende que as instituições devem mudar para incentivar a diversidade e o cuidado com outras etnias e classes sociais. Isso reflete um esforço de descentralizar a questão dos valores e da dignidade de um eixo eminentemente individualista e econômico para que possamos despertar as pessoas para seu entorno, mudando, via instituições, ideias profundamente enraizadas, como a que diz que a miséria é um problema econômico, ou um problema do indivíduo que, para se ver livre da miséria, precisa ascender socialmente.

E agora, a parte que eu não poderia deixar de compartilhar:

[Vou lhes contar uma história. Meu pai estaria com 95 anos esse ano. Quando minha mãe morreu - eles tiveram um relacionamento maravilhoso. Foi como se tivesse saído de um livro. As pessoas costumam dizer, "bom, depois de crescer, você sabe como era quando seus pais brigavam?" E eu dizia, "Na verdade eu não sabia" Isso não foi algo que vivemos. Então, quando minha mãe morreu, meu pai estava acabado. E ele pegou uma doença seria; eles acharam que era câncer e disseram que ele tinha que operar. Ele disse, "não". "Você sabe, eu já vivi o bastante. Eu estou pronto para partir." Assim as crianças se reuniram e nós dissemos, "se você precisa partir pai, você pode. Mas nós precisamos de você." Ele disse: "vocês já estão crescidos"

Então eu fiz algumas pesquisas sobre o seu tumor, e eu voltei e compartilhei a pequisa com ele. "Pai, eu gostaria que você soubesse que se você quiser partir tudo bem. Mas existe uma chance do tumor explodir dentro do seu corpo, causando uma dor terrível, e você não morrer." Ele disse, "OK, OK. Vamos operar."
(risos)

Eu disse depois, "Então pai, por que você acha" - ele era muito cristão - "por que você acha que Deus está te mantendo aqui?" Ele respondeu, "Eu acho que a última lição que preciso ensinar às crianças é como cuidar de mim." Ao invés de encarar aquilo como um peso, porque ele precisaria de ajuda, é como se ele dissesse: "Esse é meu último presente para você, ensiná-lo a cuidar das pessoas." E isso é maravilhoso. ]

Ser impecável e bem sucedido, não dar trabalho, são qualidades do ideário liberal que contribuem para privar as pessoas que nos cercam de participar mais das nossas vidas e de aprenderem a arte do cuidar. Isso não é um clamor pelo assistencialismo ou paternalismo, uma defesa do "mimo", não estou defendendo que isso seja uma obrigação das autoridades, mas uma qualidade cultivada por todos. Cuidar é uma qualidade essencial, infelizmente relegada ao plano de um "marketing pessoal dos oportunistas", ou algo que atenta contra a livre iniciativa individual.

Receber ajuda é tão importante quanto ajudar, é parte dessa coisa maravilhosa que é crescer e conviver em sociedade. E como todas as coisas boas da vida - é de graça. O quanto desaprender "o cuidar" dificulta nossas vidas e nos faz sofrer sozinhos, aguentando o tranco da vida em silêncio, afinal, neste processo de "descuido" não nos descobrimos incapazes de pedir ajuda?

https://onbeing.org/programs/john-a-powell-opening-to-the-question-of-belonging-may2018/

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