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| Saturno devorando seus filhos(Rubens) me parece um retrato invertido da atualidade |
Ler o livro "A cultura do narcisismo" de Christopher Lasch, depois de algum tempo pesquisando temas sobre a cultura contemporânea foi a confirmação de algumas perspectivas que estavam me incomodando, mas ainda não conseguia expressar. O livro estava na prateleira de baixo na estante da biblioteca, caindo aos pedaços. A julgar pela capa, com certeza teria deixado para outra hora, mas o livro se revelou uma preciosidade. O autor passeia com desenvoltura por temas caros, até agora debatidos de maneira bem superficial. Isso porque o debate atual tem centrado energias em uma redução das relações ao "feijão com arroz" das disputas de poder entre indivíduos/corporações/grupos sociais, tentando tornar inteligível o cenário altamente complexo da atualidade e assim restituir ao indivíduo paralisado uma possibilidade de mobilização.
“a sociedade burguesa parece ter esgotado por toda a parte seu estoque de ideias construtivas. Perdeu tanto a capacidade como a vontade de se confrontar com as dificuldades que ameaçam subjugá-la. A crise política do capitalismo reflete uma crise geral da cultura ocidental, que se revela por um desespero difundido de compreender o curso da história moderna ou sujeitá-lo a uma direção racional. ”
O ponto central do livro diz que a evolução de nossas estruturas de produção e consumo estão conduzindo os indivíduos para uma espécie de regressão psíquica, tornando-os seres narcisistas (no sentido psicanalítico do termo). Seria equivalente dizer que as pessoas estão sendo mantidas em um estado de imaturidade psíquica artificial que as instala em uma posição de dependência e fragilidade frente ao mundo(como animais em cativeiro cuja vida se molda à estrutura de produção). Seres emocionalmente fragilizados não estão propensos a questionar seus superiores e vivem em constante estado de ansiedade, o que proporciona ao mercado um cenário eternamente abastecido de consumidores. Acredito que em algum ponto do desenvolvimento capitalista alguém leu a passagem em que Freud explica as fontes das pulsões, dizendo que o exterior nos fornece estímulos variados em intensidade, mas do quais podemos fugir e escapar, enquanto que nosso mundo interior nos fornece estímulos menos intensos, mas que não podemos interromper. Dessa forma, enquanto compramos produtos guiados pela necessidade real, ou utilitária, estaremos sempre limitados pelas situações e contextos. Isolando as pessoas e as tornando desamparadas podemos conectar a industria produtiva ao mundo interior, inexorável, das pulsões.
"Depois de um dia estressante, nada melhor do que ir para o shopping gastar" ou "comer é algo que me acalma" não são comentários familiares para você? "A mercantilização de todas as esferas da vida" não seria uma adaptação ergonômica do mercado ao indivíduo infantilizado, no jargão psi "narcísico", que depende visceralmente de um apoio externo para sobreviver? Essa questão é fundamental para a clínica contemporânea porque teoricamente devíamos nos ocupar da saúde emocional das pessoas, não da manutenção de seu estado dependência.
Penso que toda espiritualidade, ideologia, terapêutica sempre passa pela tentação de preencher esse mercado do narcisismo, da "busca da felicidade" que foi desenhada para indivíduos infantilizados.
O último capítulo se intitula "O paternalismo sem pai", e isso me parece dialogar diretamente com o cenário atual das disputas em torno das questões de privilégio e discriminação. Me parece que estamos nos colocando em um patamar que considera as estruturas de poder ainda centralizadas em figuras de privilégio, ou categorias aristocráticas que não fazem mais sentido no cenário explodido do capitalismo tecnológico globalizado. Autores conservadores responsabilizam a esquerda pela destruição da família e das estruturas de hierarquia que organizavam a sociedade sem notar que o esse esvaziamento não é fruto de um projeto de revolução ou renovação, mas de precarização do indivíduo. Esse "projeto" não aponta saídas.
Quando um casal LGBT adota uma criança, isso é uma resposta, uma alternativa positiva tanto ao desamparo da criança quanto do casal que não se vê reconhecido pela sociedade, contrastando com o número enorme de crianças que possuem pais héteros e estão terceirizadas para todo um exército de cuidadores, pediatras, babás, escolinhas, avós etc. O desamparo não é privilégio apenas das minorias, todas as famílias estão em processo de decomposição e tal contexto explica porque existe tão pouco diálogo, pipocam clichês para definir as partes, seja os "brancos/machistas" ou as "ditaduras gaysistas", algo que o escritor identifica em termos de mecanismos de defesa narcísicos, projeções maciças, indicando que a questão está colocada na "psicologização" da vida em sociedade. Algo que solicita uma atuação mais intensa por parte dos profissionais da área, no sentido de repor a falta dessa figura paterna decapitada.
"A popularização dos modos terapêuticos de pensamento desautoriza a autoridade, em especial no lar e na sala de aula, enquanto existe a dominação sem críticas. As formas terapêuticas de controle social, ao abrandar ou eliminar a relação adversa entre subordinados e superiores, torna cada vez mais difícil para os cidadãos defender-se contra o Estado, ou para os operários resistir às demandas da corporação. À medida que as ideias de culpa e inocência perdem seu sentido moral e até mesmo legal, os que estão no poder não mais impõem suas regras por meio de éditos autoritários de juízes, magistrados, professores e pregadores. A sociedade não mais espera que as autoridades articulem um código de leis e de moralidade claramente racional e elaboradamente justificável; tampouco espera que o jovem interiorize os padrões morais da comunidade. Exige somente conformidade às convenções das relações cotidianas, sancionada por definições psiquiátricas do comportamento normal.”
A discriminação existe, disso eu não tenho dúvidas. Contudo, acredito que isso não seja mais um tema de justiça social, simplesmente porque os padrões já não funcionam mais. A diferença que desejo pontuar está no fato de que utilizamos a autoridade/privilégios apenas para compor um eterno espetáculo de deposição que se esgota em si mesmo. A nossa capacidade crítica parece adaptada ao absurdo, uma acomodação ao espetáculo, um lugar vip na plateia que não nos diferencia dos que defendem e estão órfãos do status quo. Todos queremos ver uma decapitação, pouco importando quem ou o que será supliciado.
Não cultivo esperanças de que consigamos aceitar nossas diferenças, isso não é possível para um "indivíduo narcísico", pois a dependência "dos outros" é muito intensa e isso o leva a buscar companhias semelhantes, pessoas que não o questionem nem discordem de seus posicionamentos, grupos e ideologias que ofereçam amor e aceitação incondicional e dos quais ele possa se desvencilhar diante do menor atrito. Ironicamente, junto com a dependência extrema existe uma solidão sempre a espreita, pois as pessoas não conseguem mais suportar o peso dos vínculos.
O livro não traz muitas esperanças, assim como autores semelhantes também não parecem muito otimistas. Mas isso não me parece um sinal de que não existam de fato saídas, apenas indica um esforço enorme que nossa cultura despende no sentido de nos convencer de que elas não existem. Existe um desespero por transformar a vida em uma quimera burocrática, previsível e inescapável. Eu insisto em acreditar que a clínica é um espaço importante (infelizmente um dos únicos) para sustentar e validar outras formas de vida, assim como o ativismo público e o diálogo com as pessoas que estão percebendo o atual estado de coisas.
É importante percebermos que não estamos sozinhos nessa jornada e que existem muitas pessoas empenhadas em abrir outros caminhos nesse cenário paradoxal e paralisante que é a vida atual.
As citações eu retirei de um post sobre o livro:
https://labirintosdoser.blogspot.com/2011/01/christopher-lasch-cultura-do-narcisismo.html
O autor faz uma resenha do livro, comentando os principais tópicos.
Arquivos do mal estar de da resistência - Joel Birman, é uma obra que dialoga bastante com Lasch, possui temas mais amplos, sem se restringir ao universo da psicanalise.

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