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| Entrada de Auschwitz - "O trabalho liberta" |
A primeira problemática que eu gostaria de abordar é o "amai o próximo como a ti mesmo".
Nós adoramos essa máxima, e de fato ela é genial. Qual é a crítica que podemos fazer a ela? A psicanalise pontua muito bem que não podemos amar ao próximo como a nós mesmos, simplesmente porque não temos recursos afetivos infinitos. Somos seres limitados e não conseguimos dar atenção total ao "próximo" e continuar vivendo com dignidade e saúde. O que eu acho que Jesus poderia ter acrescentado à sua pregação seria uma nota de rodapé para os leitores de 2018, explicando que aquilo que ele estava pregando era algo endereçado ao contexto que ele vivia e que deveria ser lido com mais atenção e não usado como bordão de auto ajuda, senão sua pregação acabaria por patrocinar relações abusivas.
Eu não endosso a crítica psicanalítica do "amai ao próximo" sem contextualizar a mensagem do evangelho. Na época de Jesus, Israel estava sob dominação romana e em 70 a. C. Espártaco havia tentado liderar uma revolta contra Roma que terminou na crucificação de 6.000 escravos nas margens da Via Ápia. Tal punição não foi decidida pelo ódio, mas pelas leis romanas que determinavam a crucificação como forma de punição pela revolta de escravos. Uso este exemplo para elucidar que Jesus foi extremamente revolucionário em sua pregação, pois falou a uma platéia que apedrejava "mulheres adúlteras" como espetáculo público. Jesus confrontou uma ética da violência pela ética dos afetos em um mundo dominado por relações brutais.
Hoje vivemos em uma democracia capitalista basicamente cristã e somos normalmente educados a acreditar que os outros são mais importantes do que nós. Em geral, quando pessoas estranhas visitam nossa casa, elas são bem tratadas, limpamos a casa, fazemos uma comida diferente. Temos um medo horrendo de errar em público, de decepcionar as pessoas que amamos, olhamos nosso reflexo nas janelas dos carros para ver se o cabelo não está desgrenhado, se não tem alface entre os dentes. Nos sentimos constrangidos ao descobrir uma espinha na cara, uns quilos a mais, sofremos terrivelmente por não sermos aceitos, por fazer uma festa de aniversário que ninguém vai.
Quando chegamos no ambiente de trabalho encontramos relações humanas direcionadas estritamente para efetividade/produtividade e alguns podem passar mais de 12 horas por dia nesse ambiente. Muitas empresas estão demitindo funcionários sem reduzir o volume de trabalho. Com o estresse as pessoas adoecem e logo são demitidas por não terem a mesma produtividade. Nesse quadro vemos o pânico surgir, ataques que fazem as pessoas travarem no meio da rua, no trânsito, metrô. É aqui que eu relaciono a questão do nosso "amor ao próximo" com as patologias do mundo corporativo, porque me espanta o fato de ninguém claramente se revoltar com esse quadro, o destino comum é o desmoronamento silencioso do indivíduo.
A queixa se apresenta como se o chefe/cônjuge/amigos/cachorro não fosse justo com a gente, querem demais e não conseguimos faze-los felizes. "Como fazer esse outro feliz?" Quando entramos na vida dessas pessoas percebemos um território arrasado, empobrecido e solitário. "Gosto de trabalhar para esquecer o que eu passo em casa", assim vamos substituindo nossa vida pelo trabalho e ancoramos nossa subjetividade em relações que visam interesses do coordenador/supervisor/direção, imperativos que normalmente não são claros nem definidos com relação ao que esperam que seu funcionário desempenhe. Diria que a responsabilidade comum é fazer "sempre mais". O imperativo ético do "amai ao próximo" favorece um clima de alienação que cabe como uma luva nas relações corporativas, alastrando-se para as relações amorosas. O limite entre amor e abuso é tão tênue quanto a diferença entre o certo e errado.
A dificuldade de se estabelecer a responsabilidade de forma clara é parte desse cenário, pois assim podemos fornecer uma pressão variável sobre o indivíduo, inflando sua culpa e pavor diante de uma possível falha, sem que se questione o contexto dos fracassos, ou o exagero das demandas. Outras formas de flexibilizar a responsabilidade aparecem quando convivemos com pessoas que sofrem nossas decisões pessoais como tiros a queima roupa, quando somos cobrados por tarefas cuja execução deveria ser de uma equipe inteira, etc. Descobrimos que as pessoas regulam, a partir de suas reações afetivas, a parcela de culpa e responsabilidade que atribuímos àqueles que nos cercam - isso é, na prática, um mundo sem ética.
A manipulação pela culpa é uma antiga estratégia descoberta pela religião, agora apropriada pelo mundo do trabalho e do consumo para submeter as pessoas à um nível ilimitado de pressão interna.
Junto a esse quadro de "responsabilidade flexível" a solidão se estabelece sem data para acabar, afinal, é essa solidão que permite o aprisionamento do indivíduo ao único fio de vida que o trabalho passa a representar. Nos sentimos em um beco sem saída ao acreditar que pedir ajuda pode ser um sinal de fraqueza, ao passo que se fracassarmos não teremos ninguém para culpar a não ser nós mesmos.
Acredito que precisamos conversar sobre ética para podermos estourar essa bolha, conversar sobre os limites nas relações e descobrir que na medida que nos relacionamos com pessoas, também nos relacionamos com nosso "mundo interior". A solução não passa pela busca do "bom carrasco", ou do "bom chefe", ou do "parceiro que me faça feliz", mas pela percepção de que devemos participar ativamente de nossas relações, perceber que a "responsabilidade" é um conceito chave para nos relacionar de forma equilibrada.
Acredito que nossa angústia começa quando cruzamos nossos limites e assim fazemos pelo hábito de usar nossas relações de forma a dar ao outro as chaves de nossas responsabilidades. Percebo que a ética não deixou de ser importante, nem é algo que podemos trocar por saídas fáceis. Máximas, sejam elas de Jesus, Confúcio, ou da última novidade em auto ajuda, não esgotarão a necessidade de trabalharmos e refletirmos sobre nossas responsabilidades nessa vida.

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