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O abuso sexual e a invisibilidade da vítima

Zahira Lieneke no programa Conversa com Bial

O que está em jogo quando vemos um programa de entrevistas revelar um caso de abuso sexual envolvendo um líder espiritual mundialmente conhecido? Quais os efeitos dessa revelação em nossas vidas?

Assistir ao programa conversa com Bial me fez pensar no quanto foi difícil para Zahira Lieneke guardar essa experiência em seu íntimo por quatro anos e só agora conseguir ser ouvida. O quanto ela hesitou e sofreu em silêncio antes de conseguir procurar ajuda e trazer à luz o que havia acontecido. Uma das coisas que ela cita é que ajudar outras mulheres que sofreram o mesmo abuso foi algo que a motivou a levar a frente essa denúncia, isso deixa claro que o desejo de ajudar foi um ponto de apoio para tomar sua decisão.

A vontade de ajudar os outros foi provavelmente o que a trouxe até o Brasil e a expôs ao abuso, foi também o que a ajudou a sair de seu isolamento. Esse detalhe trágico parece ser um roteiro comum nas cenas de abuso. Abusadores costumam se posicionar na cadeira do salvador, curador, apoiador, etc. e esse parece ser o problema do século porque toda relação humana atual repousa sobre um grande desamparo, fruto da deterioração das grandes instituições e tradições, como a família, o Estado e a Igreja. Mas antes de abrir um panorama mais amplo gostaria de comentar o ponto mais singular desse caso, o abuso realizado pelo mestre espiritual.

O que normalmente ouço dos jornalistas e amigos que comentam o caso é que o médium tem um poder na congregação devido quase que unicamente a sua reputação e que isso amedronta e ameaça as pessoas que sofreram o abuso. Eu gostaria de acrescentar que existe um poder que é singular da religião e isso é algo que passa ao largo de meus amigos céticos ou da mídia especializada. As pessoas que frequentam casas e templos para pedir favores espirituais entendem que existe algo mais em jogo além do efeito placebo e isso deve ser levado em consideração para a compreensão de casos dessa natureza.

Podemos falar que esse poder é imaginário em vários sentidos, porém acho suficiente assumir a realidade psíquica desse fato e apontar o quão perturbador é um abusador com poderes sobrenaturais e o quanto isso contamina a vida emocional da vítima. Isso se manifesta na ameaça do médium quando ele diz: " faça isso direito, você não vai querer que a sua doença volte!" Ou poderia avançar sobre ameaças a serem executadas por entes espirituais, peculiaridades que tornam a denúncia algo ainda mais difícil, pois aparentemente a justiça temporal não seria capaz de proteger a vítima.

A questão do abuso sempre toca o ponto em que a vítima perde sua capacidade de escolha, ela é coagida, ameaçada ou simplesmente dopada, não há aqui uma "relação sexual". É importante essa simplificação pois tanto os "questionadores" quanto a própria vítima terão dificuldades para aceitar a realidade do abuso. As pessoas que questionam a validade das denúncias deveriam atentar para o fato de que existe uma ojeriza tanto por parte dos que ouvem quanto das vítimas e isso facilmente nos conduz a negar a realidade do abuso.¹

Questionar a veracidade de um caso de abuso é algo que a própria vítima faz e esse é um dos vários problemas que envolve as situações de abuso sexual. É claro que as denúncias precisam ser apuradas, contudo precisamos reconhecer que abusadores sempre terão privilégios, advogados e recursos para coagir suas vítimas a permanecerem no silêncio. Deixo-lhes esta passagem do livro Os Homens Explicam Tudo para Mim:

"Este ensaio foi escrito em resposta aos relatos iniciais do que aconteceu no quarto de hotel de Dominique Strauss-Kahn em Manhattan. Depois disso, por meio de uma maciça injeção de dinheiro para poderosas equipes de advogados, DSK conseguiu que os promotores públicos de Nova York abandonassem a acusação criminal - e ainda manchassem a reputação da vítima com informações fornecidas pelos advogados. Tal como tanta gente muito pobre e tanta gente vinda de países mergulhados no caos, Nafissatou Diallo havia sempre vivido nas margens da sociedade, onde dizer a verdade às autoridades nem sempre é uma decisão sensata ou segura; assim, ela foi retratada como mentirosa. Numa entrevista à Newsweek, ela disse que havia hesitado em dar queixa de estupro e temia as consequências. Mas havia, por fim, saído das sombras.

Assim como tantas outras mulheres e meninas que foram estupradas, em especial aquelas cuja história ameaça o status quo, seu caráter foi posto em julgamento. As manchetes na primeira página do New York Post, tabloide pertencente a Rupert Murdoch, disseram que ela era prostituta; mas por que uma prostituta iria trabalhar em tempo integral como camareira de hotel sindicalizada, por US$25 a hora? Isso era difícil explicar; e assim, ninguém se preocupou em fazê-lo. (O New York Post foi obrigado a fazer um acordo quando Nafissatou processou o jornal por calúnia)" pg. 72

A invisibilidade das vítimas é uma questão muito mais relevante do que a as denúncias falsas, creio que esse ponto foi a temática principal do movimento #metoo e é algo que provavelmente as estatísticas não terão muito a dizer, tendo em vista que não interessa aos poderes hegemônicos quantificar seus abusos. Rebecca Solnit elabora a ideia de que a relação abusiva de Dominique Strauss-Kahn com Nafissatou é uma metáfora da relação da instituição que DSK presidia(FMI) e os países pobres para os quais fornecia empréstimos. Tal metáfora nos permite pensar que convivemos diariamente com situações abusivas decorrentes de abismos sociais que reproduzem em larga escala o que assalta individualmente as vítimas de abuso sexual.

Uma faceta não muito comentada dos abusos é que grande parte deles acontece no seio da família. Quem atende vítimas de violência sexual conhece a cena do abusador na família que não é denunciado, e ainda por cima é defendido pelos parentes como uma pessoa acima de qualquer suspeita, ficando livre para abusar de várias gerações sem ser perturbado. Casos de pais que abusam dos filhos e ainda ganham a guarda dos mesmos após um processo de alienação parental, ou casos em que as mães acobertam os maridos, deixando os filhos expostos à violência sexual. Esses exemplos não são fruto da minha imaginação, infelizmente, e deixa claro o quanto as vitimas são frequentemente impossibilitadas de se manifestar, ou simplesmente não tem condições de fazê-lo.

Interessante notar que os rompantes de indignação pública contra pedofilia ocorridos por ocasião da performance La Bête normalmente não ocorrem por ocasião de abuso concreto, por conta da própria arquitetura do abuso e do "cinturão de cúmplices" que envolve os abusadores.

A natureza desagradável desses relatos não os coloca na pauta da vez, e assim quem sofre essas violências acredita que não é mais uma pessoa normal, que foi retirada do convívio humano. A combinação de solidão e afetos bagunçados pela "admiração e sordidez" que o abusador costuma representar criam um conflito psíquico que contamina a vida afetiva da vítima, a vida sexual igualmente se compromete. Todos esses fatores se potencializam pelo segredo que gira em torno do acontecimento, isolando a vítima, acabando por colocar em seus ombros um peso que o abusador não quer encarar. É importante que fique claro que o abuso sexual não é uma violência como um assalto, ou uma agressão, pois os maiores desdobramentos dessa violência repercutem sobre a vida emocional da vítima e isso não pode ser quantificado ou medido.

Precisamos falar sobre isso, ainda que venhamos a acabar com a festa de uma sociedade que curte uma hipocrisia, e que tem o hábito de ser covarde e violenta. Precisamos enfrentar a questão do abuso, se não tivermos forças por nós mesmos, que seja pelas pessoas que iremos ajudar, seguindo o belo exemplo de Nafissatou Diallo e Zahira Lieneke, pois quando calamos deixamos o caminho livre para essas pessoas continuarem destruindo vidas.

¹Esse questionamento da veracidade dos abusos é algo tão comum que eu li um capítulo inteiro de Gilles Lipovetsky em seus livro A Terceira Mulher, insinuando que o grande número de denúncias de abuso entre casais(maridos e namorados) eram um "exagero" originado no movimento feminista americano.
  



  

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