Muito vem se debatendo sobre o que motivou os massacres na escola em Suzano e nas mesquitas da Nova Zelândia. Parte desse debate toca a questão da circulação de armas de fogo e de como uma política de flexibilização da posse de armas pode estar relacionada com o incidente.
Um ponto que me chama a atenção é a tal utilidade da arma de fogo, e isso é muito importante para a compreensão dos massacres que vem acontecendo. Até agora, vejo pessoas criticando a flexibilização da posse de armas argumentando que a única utilidade de tais ferramentas é a morte. Eles tem razão, não podemos abrir uma lata de milho com uma .40, nem consertar um carro, porém no que diz respeito a sua tarefa - matar - ela é muito eficiente. O que me incomoda em todo o debate sobre a circulação de armas de fogo é que por um lado exaltamos as coisas simplesmente pelo seu valor de uso, e por outro nos escandalizamos quando elas são utilizadas contra nós.
Qual é o valor de uso de uma obra de arte? Ou de uma obra filosófica? Não podemos desentupir uma privada com a 9ª sinfonia, nem usando o estruturalismo de Levi Strauss, e isso é algo que parece estar de mãos dadas com um pensamento que admira as armas de fogo - um certo desprezo pela arte e pelas humanidades como se tudo isso fosse uma coisa supérflua, uma grande excentricidade diante das necessidades práticas da vida. Para que reservas indígenas quando podemos explorar a área para plantar soja e distribuir renda para famílias camponesas famintas? Todos os argumentos usados pela atual gestão giram em torno de coisas práticas, óbvias até.
Nosso desafio atual é: como dialogar com um abridor de latas?
Nesse mundo prático, uma arma se torna o ícone máximo, uma espécie de cruz cristã. Por quê? Vamos lá... uma arma de fogo pode ser operada por qualquer um, em qualquer condição de clima, do dia, está sempre disponível. Não precisa de bateria, uns três movimentos e pronto - ela está a um clique de atuar. Logo, posso ser sedentário, analfabeto, sem pós graduação, surdo, depressivo, solteiro, ateu, não falar inglês, míope, etc. E mesmo assim eu posso matar alguém com um clique.
Pense no trabalho que seria fazer a mesma coisa sem uma arma de fogo, com uma faca por exemplo. Aqui me lembro de filmes do Tarantino, onde existem aquelas brigas cansativas, excruciantes, até que o oponente seja vencido. Puta trabalho não? Claro que sempre existiram matadores, seres habilidosos que matavam com movimentos precisos e rápidos, como um espadachim que furava artérias num piscar de olhos. Porém essa habilidade exigia um treino e dedicação de uma vida inteira, coisa que nossos Indiana Jones atuais resolvem com um disparo.
Todo o debate sobre os massacres gira em torno da efetividade das armas de fogo, de como elas funcionam bem, inclusive nas mãos de loucos!
A arma de fogo é o pináculo da cultura pragmática, técnica e fria. Os projéteis de chumbo atravessam pessoas como papel, liquidam anos de carinho e dedicação em uma fração de segundos. Isso é um primor de efetividade. Creio que os pilotos que arrasaram Hiroshima e Nagasaki foram as pessoas mais efetivas da existência humana até agora. Com um apertar de botão eles liquidaram milhares de vidas e construções que juntas somam eras de trabalho e dedicação vital. Para construir uma casa gastamos centenas de reais e horas de dedicação e esforço, uma vida necessita de anos de amor e cuidados dedicados ao ser ainda frágil que se constitui diante de nós, mas destruir tudo isso é uma coisa que podemos fazer em um estalar de dedos.
Quando assisti o documentário sobre a guerra do Vietnã, via com frequência os entrevistados justificarem e mensurarem suas conquistas em termos de "números de mortos". Estamos vencendo a guerra porque estamos matando numa taxa de 30 vietnamitas para cada americano morto. O secretário de defesa americano, Robert McNamara, era um empresário especialista em aplicar modelos matemáticos para ampliar a produtividade e alcançar resultados. Por isso, veja que curioso, foi escolhido para capitanear a guerra e aplicou seus talentos ad nauseam nos campos do Vietnam. Essa relação entre efetividade e destrutividade é uma característica de nosso tempo, afinal destruir é um ramo da atividade humana mais disponível ao incremento tecnológico. Hoje, graças à evolução tecnológica, podemos destruir o planeta várias vezes.
Para fechar os dois pontos do liame. Nossa sociedade valoriza a efetividade, contudo, existe um enorme contingente de jovens que não são absorvidos pelas estruturas econômicas disponíveis, o que no longo prazo será ainda mais alarmante. Esse contingente de pessoas "inúteis" se sentem vazias de qualquer valor existencial, e não fizemos questão nenhuma de elaborar alternativas à desertificação dos modos de ser tradicionais que nossas culturas cultivaram por séculos. A pressão que esses jovens sentem para entrar no mercado de trabalho e alcançarem uma dignidade existencial é enorme, o que beneficia os donos do poder, é claro. Esses mesmos jovens buscam maneiras de existir, o que toca a questão das armas de fogo, pois fazer e realizar são as únicas coisas disponíveis no mercado atual, seja produzindo produtos, ou mortes, o "fazer" é a única instância que repercute e dá dignidade ao ser jogado no vazio social.
As armas de fogo, em sua efetividade quase ilimitada, sempre será uma alternativa para aqueles que não possuem dignidade existencial se afirmarem sobre uma ordem que não lhes dá voz. A efetividade recusada pela exclusão social econômica é recuperada de forma dramática pelo mecanismo da arma de fogo, este é o mesmo recurso operado em maior escala pelo Presidente em sua campanha, quando ofereceu a flexibilização da posse de armas de fogo para uma população que se encontra sistemicamente impotente diante da crise politico-econômica que aflige o Brasil atualmente.
Não à toa, ele não se manifestou pessoalmente a respeito do ataque em Suzano.

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