Pensando no que eu diria em uma aula de educação sexual para adolescentes, eu cheguei a seguinte questão: por que transar com um estranho sem camisinha?
Afinal, toda aula de educação sexual basicamente possui slides de pintos carcomidos, feridas purulentas e, no final apoteótico, os professores soltam um solene: se vocês não querem ficar assim, usem camisinha.
Mesmo assim, acredito que relações sexuais sem preservativo aconteçam a torto e direito, as doenças não desapareceram, adolescentes continuam engravidando e eu me pergunto se isso acontece apenas porque transar com camisinha é menos prazeroso. O medo de engravidar, ou de pegar uma doença sexualmente transmissível não é suficiente para impedir alguém de transar sem camisinha, então por que insistimos nesse tipo de abordagem se ela não funciona?
Creio que essa abordagem cria um problema: ela relaciona doenças com chagas purulentas. Quando a pessoa se depara com alguém atraente, cheirosa, bem vestida em uma festa, não irá relacionar essa imagem com a vista nos slides... um pinto sem feridas, uma virilha depilada, mais alcool e voilá, a pessoa está longe daquela imagem terrível, doente, que deveria te motivar a usar camisinha. Muitas doenças sexualmente transmissíveis não possuem sintomas visíveis, o que torna o portador um transmissor inocente, fato que levou a mudança da nomenclatura de DST para IST(infecções sexualmente transmissíveis). Logo, enquanto tivermos uma vida sexualmente ativa, nunca teremos 100% de certeza de que não portamos uma doença e isso já seria um motivo suficiente para usar preservativo.
Outra coisa, tendemos a acreditar que as pessoas que nos encantam são pessoas boas, legais, não o contrário. Não constatamos que as pessoas são boas e então sentimos tesão. Acredito que é por isso que o Papa não é um sex symbol, ou que pessoas legais normalmente não são um destaque na arte do flerte. Nossa sexualidade sempre contorna obstáculos e transforma o pior traste da festa em uma pessoa genuinamente boa, apenas mal compreendida. Essa distorção de imagem, somada aos artifícios da sedução, transformam qualquer zé ruela em uma figura confiável num piscar de olhos.
O momento chave da aula deveria ser a primeira transa com o "crush". As pessoas já se conheceram, saíram, dançaram, trocaram mensagens e estão interessadas uma na outra. Em uma oportunidade, quarto vago, banheiro do churrasco, sei lá, o casal está livre para a primeira transa e não existe camisinha a vista. O que acontece aqui? O que você faria? Essa deveria ser a abordagem de uma aula de educação sexual, porque é aqui que a porca torce o rabo. Sem contar que o homem pode estar chumbado de cerveja, não consegue manter a ereção com o preservativo... e agora José? Nossos adolescentes deveriam ser instruídos em situações reais, saias justas, que irão enfrentar em suas vidas adultas, independente do nível de santidade do professor em aula.
Insisto nesse tema porque tenho encontrado pessoas que nunca transaram com camisinha. Imagine uma pessoa sexualmente ativa dez, vinte anos transando sem proteção, isso sem pensar nas pessoas que toparam acreditando vagamente que aquilo ali só está rolando com elas. Por isso criei uma regra: uma pessoa que insiste em transar sem camisinha é uma pessoa que nunca usou preservativo. Digo isso em um contexto de sexo casual. Mulheres estão mais condicionadas a exigirem proteção por motivos óbvios, pois as doenças se manifestam internamente, possuem tratamento longo e podem causar complicações como câncer do colo do útero, sem contar no risco de gravidez. Já os homens que se deparam com parceiras que não querem transar com camisinha estão em maus lençóis, isso porque os homens não costumam "negar fogo" diante de uma mulher que está disposta a transar, logo, você estará diante de alguém que provavelmente nunca fez uso de preservativo. Na dúvida, espere o pior.
É claro que não é comum mulheres forçarem a barra para transar sem camisinha, ao contrário dos homens que tiram a camisinha no meio da transa, forçam a parceira a tomar pilula do dia seguinte, tudo isso sabendo que estão infectados com HPV. A pior situação de sustentar o uso de preservativo é quando a pessoa desejada não quer usar, você está ali apaixonado e louco para curtir um chamego, porém, acaba saindo como estraga prazeres. A camisinha está no bolso, está ao alcance das mãos, mas a pessoa não quer usar, o que eu faço? Vou colocar mesmo assim e saber que a outra pessoa não está tendo uma transa satisfatória? Desta forma, recompensamos os afetos que nossos parceiros nos dedicam, usando-os como um pé de cabra para forçar o outro a se expor, se violentar e culpar.
Gostaria de deixar aqui uma dica: gostar não é suficiente - repito. Use a camisinha como um teste de respeito. A camisinha não deve ser usada apenas para evitar doenças ou gravidez, mas pode ser usada para evitar parceiros imbecis, afinal, se você gosta de alguém, mas essa pessoa não respeita seu desejo e integridade, isso é um sinal de que a pessoa ali do outro lado da cama esta cagando para o que você sente e pensa. Precisamos usar as "saias justas" que naturalmente surgem nos encontros para testar nossos parceiros, para sentir onde estamos pisando. Da próxima vez que alguém quiser transar sem preservativo, negue e observe. Forçou a barra? Saia tranquilamente, uma curva de rio a menos.
Desculpas manjadas: HIV não passa em uma transa pênis-vagina com boa lubrificação, gozar fora não engravida, pílula do dia seguinte elimina chance de gravidez, camisinha brocha, diminui prazer... Sem contar a crença de que as pessoas são claras com relação a sua sexualidade, tipo: "ela iria me avisar que está doente antes de se relacionar". Esse engano trágico acontece porque vivemos em uma sociedade que se acredita racional e que relega à sexualidade tudo que não se enquadra, ou seja, os temidos "afetos irracionais" que não circulam em nosso dia a dia. Continuamos buscando relações sexuais que sejam capazes de escoar nossos desejos inconscientes, relações que, por definição, devem transgredir o senso comum e se "aprofundar" em intensidade e verdade - aqui dança, inclusive, a distância pressuposta pela camisinha.
Acredito que confiamos que pessoas com IST são estigmatizadas e assim deixamos a guarda baixa quando o parceiro é alguém "conhecido". Desta forma, acreditamos que estigmar pessoas é uma maneira de manter um espaço de segurança, nos deixando mais a vontade para circular sem preservativo. Acho importante explicar que certas praticas sociais abjetas existem justamente porque dão suporte a sintomas sociais, curtições que não admitimos em publico... estigmatizamos para nosso conforto sexual.
Da parte dos homens, a camisinha se coloca como um obstáculo ao desempenho, principalmente nos primeiros encontros. A insegurança domina o cenário e precisa ser compensada com viagra, ou exposição do pênis, como se o contato garantisse ereções ilimitadas. Como impressionar a garota se eu brochar? Creio que ambos querem impressionar, ser impecáveis na transa, tudo isso é marca de uma cultura que nos valoriza como objetos de consumo. Dessa forma nos sentimos ansiosos e tensos diante de um novo encontro, deveríamos nos sentir curiosos... como é essa pessoa que despertou meu interesse? De que forma ela lida com esses pequenos problemas? Quer ter uma ereção infinita? Então espere que ele exija uma aparência perfeita. Quanto mais nos esforçamos para ser impecáveis, mais esperamos isso dos outros.
A brochada se vincula à camisinha como visitantes indesejados do encontro amoroso, denunciando inseguranças de ambos os lados, pouco tem a ver com prazer, prevenção de IST ou gravidez. Nunca vi um filme romântico que explorasse o minuto fatídico do break para achar a camisinha, da brochada, das tentativas "meia bomba", do constrangimento de se acreditar um fracasso sexual, desapontando o amado. Isso deveria ser o tema de uma aula de educação sexual. Como desapontar aqueles que gostamos? Como é se sentir inadequado? Nos expor resolve?
Deveríamos conversar com nossos adolescentes para construir uma percepção de sexo que avance para além do consumo mútuo.

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