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O real está em baixa




Você prefere receber uma fake news ou uma notícia real? As boas maneiras nos dizem para buscar a verdade e o real, acontece que nós não estamos muito felizes com a realidade. Talvez isso explique porque as redes sociais estão dominando o mundo contemporâneo.

Nesse vídeo eu apresento algumas reflexões sobre a imagem fotográfica apenas para puxar a questão para outras paragens. Uso algumas citações de Susan Sontag, uma pensadora que eu adoro, infelizmente não vejo ninguém trazendo seu pensamento para o debate brasileiro. Deixo aqui minha contribuição.

Como sempre, eu procuro uma brecha no bloco argumentativo hegemônico/platônico de que devemos amadurecer e abraçar o real, duro como estiver... seje homem rapaz! Dizem que devemos combater as fake news por elas distorcerem e manipularem os fatos, desviando os pobres consumidores ingênuos, cidadões boa gente que habitam os grupos de whatsapp da vida, da verdade e de uma percepção lúcida do que está acontecendo no mundo.

Ninguém é inocente neste planeta, e as pessoas estão em retirada do real já há muitos anos. Desde que inventaram os smart phones, os condomínios e shoppings, o real(não a moeda) está em franco processo de esvaziamento.

No artigo "Zuckerberg se tornou o amigo dos autocratas", Lucia Guimarães lembra o que foi exaustivamente denunciado no documentário Privacidade Hackeada(eu chamei de Democracia Hackeada) que está disponível no Netflix. Ela diz que Zuckerberg está quietinho sobre os posts incendiários de Donald Trump sobre os protestos decorrentes do assassinato de Jorge Floyd, e que ele ajudou a eleger esse monte de autocratas(kras bacanas como nosso presida) nas últimas eleições.

Mark Zuckerberg usou uma estratégia que meu avô usava para combater tiriricas. Seu Wigga, cansado de escavar a terra do quintal em busca das malditas cebolinhas que ficavam a um palmo de profundidade, decidiu subir o nível do solo com serragem. Desta feita, ele saia puxando com as mãos as incautas tiriricas e elas gostosamente saiam com suas cebolas. Zuckerberg elevou o nível da realidade com sua time line e por isso eu tenho certeza que as fake news não vão acabar tão cedo. Por que se preocupar com as barbaridades que se fazem à luz do dia quando você controla a maneira como elas serão percebidas/ou não pela maioria da população?

Por isso o Supremo precisou inovar e criar o inquérito das fake news, porque os canais oficiais estavam quietinhos. Ministério publico na figura de seu procurador geral diz que isso é uma prática generalizada, levantando ressalvas a iniciativa do tribunal, mas não se manifestou diante da prática quando ela bombava na eleição de 2018.

A opinião pública é uma espécie de horta hidropônica do Zuckerberg.

"Meu nome é Zuckerberg, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!"

Já passamos muito longe do debate sobre a realidade vs fantasia e o patamar da tecnologia não nos permite mais tal ingenuidade. Quando Eadweard Muybridge descobriu que os cavalos não galopavam do jeito que os artistas retratavam, todos ficaram de queixo caídos, afinal todos conheciam os cavalos, mas ninguém imaginava que eles não conheciam a "realidade" do galope. Tal realidade só pôde ser acessada pela fotografia, ou seja, a imagem produzida pela tecnologia fotográfica pode alterar a maneira como acessamos a realidade, o que não poderá Zuckerberg e suas redes sociais?

O que temos diante de nós é um fenômeno assustador, não se trata de mera falsificação da realidade. Juízes e críticos das fake news estão batendo cabeça sobre a crise como se ela se tratasse de uma distorção de legitimidade, ou verdade, mas é muito pior que isso.


Citações:

"A realidade sempre foi interpretada por meio das informações fornecidas pelas imagens; e os filósofos, desde Platão, tentaram dirimir nossa dependência das imagens ao evocar o padrão de um modo de apreender o real sem usar imagens. Mas quando, em meados do século xix, o padrão parecia estar, afinal, ao nosso alcance, o recuo das antigas ilusões religiosas e políticas em face da investida do pensamento científico e humanístico não criou — como se previra — deserções em massa em favor do real. Ao contrário, a nova era da descrença reforçou a lealdade às imagens. A crença que não podia mais ser concedida a realidades compreendidas na forma de imagens passou a ser concedida a realidades compreendidas como se fossem imagens, ilusões. No prefácio à segunda edição (1843) de A essência do cristianismo, Feuerbach observa a respeito da “nossa era” que ela “prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser” — ao mesmo tempo que tem perfeita consciência disso. E seu lamento premonitório transformou-se, no século xx, num diagnóstico amplamente aceito: uma sociedade se torna “moderna” quando uma de suas atividades principais consiste em produzir e consumir imagens, quando imagens que têm poderes excepcionais para determinar nossas necessidades em relação à realidade e são, elas mesmas, cobiçados substitutos da experiência em primeira mão se tornam indispensáveis para a saúde da economia, para a estabilidade do corpo social e para a busca da felicidade privada."

"Para os que ficam em casa, os prisioneiros e os que confinam a si mesmos, viver entre fotos de estranhos glamourosos é uma reação sentimental ao isolamento e um desafio insolente que a ele dirigem."

"Ninguém supõe que uma pintura de cavalete seja, em nenhum sentido, cossubstancial a seu objeto; ela somente representa ou alude. Mas uma foto não é apenas semelhante a seu tema, uma homenagem a seu tema. Ela é uma parte e uma extensão daquele tema; e um meio poderoso de adquiri-lo, de ganhar controle sobre ele."

"É como se os fotógrafos, em reação a um sentido de realidade cada vez mais esvaziado, procurassem uma transfusão — viajar para novas experiências, revigorar as antigas... A premência de novas experiências se traduz na premência de tirar fotos: a experiência em busca de um modelo à prova de crises."

"As imagens são mais reais do que qualquer um poderia supor."


- Zuckerberg se tornou o amigo dos autocratas
Crônica do declínio da democracia mundial passa obrigatoriamente pelo quartel general do Facebook
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lucia-guimaraes/2020/06/zuckerberg-se-tornou-o-amigo-dos-autocratas.shtml


 - Aras diz que fake news são estimuladas por 'todos os segmentos da comunicação moderna'
Em julgamento no Supremo, PGR afirma que não tem mais a mesma confiança nos jornais tradicionais

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