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Precariedade e verdade


Quem nunca seu pão em lágrimas comeu,
Quem nunca noites aflitas passou
Sentado, aos prantos, em seu leito,
Este não vos conhece, ó poderes celestes.

Vós nos conduzis em plena vida,
Vós deixais pecar o pobre,
Para então o abandonar à dor;
Pois toda culpa se expia neste mundo.          Goethe


O poema de Goethe fala do pobre abandonado a própria sorte, tendo que arcar tanto com as consequências de sua vontade(pecado), quanto com o trabalho de punição via sofrimento.

Essa precariedade está no coração das fake news, pois revela a dificuldade que as pessoas comuns tem de encontrarem um campo de reconhecimento e validação de suas ideias e afetos. Diria que uma fake news compartilhada seria uma versão falsificada da verdade neutra produzida pelos grandes canais de comunicação, um nike da 25 de março. Me parece infrutífero repetir que as fake news precisam ser combatidas, ou que precisamos investir em sites de checagem para desmascarar as notícias falsas, seria como constatar que os nikes da 25 são falsificados e que precisam ser retirados de circulação.

No vídeo eu trabalho a ideia de que a ordem dos afetos não segue obrigatoriamente a ordem dos fatos, não possuem a mesma lógica. Isso "quebra as pernas" da verdade centralizada, que eu chamei de neutra no último episódio. Os fatos não são irrelevantes, eles apenas podem ser deslocados para construir cenários que permitam a expressão de uma revolta não expressa, por exemplo.

Nesse caso, se a "noticia" privilegia os afetos, ela pode prescindir dos fatos e focar na forma, o que facilita a produção e disseminação da desinformação. A mistura de um layout de noticia "verdadeira" encanta a manchete e lhe confere uma função poética. Pessoas que buscam notícias para se informar possuem outras necessidades existenciais e acreditam ser possível uma relação com o mundo público, ao passo que quem consome fake news não tem essa esperança de reconhecimento e participação na arena pública, afinal a inclusão desse público se dá no grupo de whatsapp. Por isso a checagem se torna irrelevante.

Diante do esmagamento do indivíduo, alguns ainda cultivam a esperança de mudar a realidade e assim resgatar sua dignidade existencial. As multidões estão usando a tecnologia para construir mundos particulares que permitam uma validação de seus sentimentos e revoltas, o que precariamente lhes permite lidar com a culpa de existir - emanações que se expressam nos comentários violentos de perfis famosos ou artigos validados pelo grande público.

Os espaços relevantes de produção de conhecimento, como as universidades, ou o público intelectual não se importam com o destino dessa multidão brutalizada e espancada todos os dias pelo poder econômico ou pela burocracia do Estado - Arrogância destilada pela fala "redes sociais deram voz a legião de imbecis" de Umberto Eco. Permanecer numa postura meramente crítica às fake news é dar continuidade ao desprezo das massas e perpetuar sua segregação, fato que beneficiará aqueles que nelas se embrenham, como o tal gabinete do ódio ou a extrema direita mundial. 

Citações:

Freud - "Antes o sentimento de culpa coincidia com o arrependimento; nisso observamos que se deve reservar a designação 'arrependimento' para a reação após efetivamente ser realizada a agressão. Depois a diferença entre agressão intencionada e realizada perdeu sua força, devido à onisciência do Super-eu; o sentimento de culpa podia ser gerado tanto por uma violência realmente consumada - como todos sabem - quanto por uma apenas intencionada - como verificou a psicanalise."
Mal estar na civilização pg.110

Winnicott - "De modo geral, é simplesmente o caso de que o roubar se relaciona com uma privação que ocorreu muito antes da explosão agressiva, durante o desenvolvimento emocional da criança. Há algo em comum na reação social a ambos os tipos de comportamento antisocial durante esse momento de esperança. Quando a criança rouba, ou é agressiva, a sociedade é suscetível não apenas de não receber a mensagem, mas vai se sentir estimulada a responder moralmente. A reação maciça natural é em direção à punição pelo roubo...e não se poupam esforços para obrigar o jovem criminoso a da uma explicação, em termos lógicos, que na realidade não se aplicam."
Tudo começa em casa pg.87

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